Foram vinte anos de batizado, casamento e festa de padroeiro e ela nunca cobrou um centavo de ninguém.
No sábado da última festa, ela chegou de madrugada pra começar o almoço de trezentas pessoas. Tava mexendo o primeiro tacho quando o fogo subiu de uma vez. Pegou o rosto, o antebraço e a mão direita a mão que ela usa pra cozinhar desde os quinze anos.
Hoje essa mão vive enfaixada. Os dedos ficaram duros e não fecham nem pra segurar uma colher.
Todo domingo ela ainda vai pra cozinha da igreja. Mas agora fica do lado, ensinando as meninas: menos sal, mexe até soltar do fundo. Nem provar o caldo sozinha ela consegue.
O doutor disse que ainda tem jeito. Existe um tratamento que cuida da pele do rosto e solta a pele da mão, pra ela voltar a mexer.
Só que tem hora. Nessa fase, cada semana a pele fica mais dura e os dedos dobram menos. Se terminar de cicatrizar assim, fica assim depois não tem mais como arrumar.
E o valor é maior do que a Ivone já juntou na vida. Quem passou vinte anos cozinhando de graça não tem nada guardado. A irmã dela, a Regina, largou metade das casas onde é diarista pra cuidar dela, e juntou o que tinha. Não chegou perto.
Ivone nunca pediu nada em vinte anos servindo. É a primeira vez precisa de outra mão.
Ainda dá tempo. Tudo pode começar por aqui:
Mandei o meu agora. Torço demais por ela.
há 8 minutosEu não fazia ideia que tinha sido tão sério. Já fiz a minha parte.
há 21 minutosJoguei no grupo da rua aqui. Quanto mais gente souber, melhor.
há 40 minutosVinte anos cozinhando de graça pros outros. Agora é a vez dela.
há 1 horaFoi pouco o que deu pra mandar, mas mandei de coração. Força, Ivone.
há 1 horaComi da comida dessa mulher a vida inteira. Não ia ficar de fora.
há 2 horas